sábado, 11 de maio de 2013

Ascensão do Senhor - Lucas 24,46-53


Neste ano, o evangelho oferecido para refletir nesta festa da Ascensão é o de Lucas, que é, sem dúvida, quem mais explicita esta ideia tanto no final do terceiro evangelho como no início do livro dos Atos dos Apóstolos.


Ele também é o único que narra o acontecimento do ocultamento da ascensão, da desaparição visível de Cristo no céu, quarenta dias depois da Ressurreição.

Para os outros evangelistas, como para Paulo, a ascensão é um acontecimento invisível e em conexão imediata com a ressurreição. Tanto é assim que até o século V depois de Cristo, a Igreja, apesar do texto lucano, celebrou como festa única a Páscoa e a Ascensão.

Depois sim, se fez sentir a historificação da narrativa de Lucas e se desmembrou a festa da Ascensão como festa própria.

Cabe a pergunta sobre o porquê do texto lucano, se de fato acreditamos que o acontecimento pascal abraça num único mistério a paixão, a morte, a ressurreição, a ascensão e o envio do Espírito Santo.

Sem dúvida, Lucas busca explicitar aos seus destinatários o mistério de Jesus e a missão da nova comunidade.

Para isso ele usa um estilo literário, uma linguagem própria de sua época. Cenas de ocultamento e de ascensão não eram desconhecidas no mundo antigo greco-romano e judeu.


Narrações desse estilo eram usadas para realçar o final glorioso de um homem, se descreve uma cena com espectadores, a pessoa famosa dirige as últimas palavras ao povo, ou aos seus discípulos, e nesse momento é arrebatado ao céu. E a sua ascensão se descreve entre nuvens e obscuridade, para caracterizar sua numinosidade e transcendência.

Segundo Paul Ricoeur, Lucas faz uso de um esquema narrativo que estava à sua disposição naquele tempo, para comunicar o mistério pascal.

Lucas narra que Jesus foi elevado ao céu, revelando assim seu destino e glória, a comunhão com Deus; dele saiu, a Ele volta. Quantas vezes no evangelho de João encontramos Jesus anunciando que volta ao Pai de quem veio!

A comunidade primitiva reconhece a glória de Jesus, que é a vitória definitiva do Deus da vida sobre a morte, por isso se prostram e adoram-no.

É significativo Lucas dizer que os discípulos voltam para Jerusalém. Sabemos que esta cidade é muito querida pelo evangelista, nela ele concentra os acontecimentos principais da vida de Jesus, ali também se dará início a um tempo novo, o tempo da Igreja nascente.

Até podemos fazer um paralelismo entre dos textos lucanos que fazem referência a esta cidade.

Foi em Jerusalém onde Jesus ainda menino foi apresentado no Templo (Lc 2,32), e a Igreja também será "apresentada" nesta cidade, e a partir dela continuará a missão de seu Mestre e Senhor (Lc 24,47).

O texto de hoje ainda revela uma característica muito importante da comunidade primitiva: a alegria. No meio da fragilidade, perigos e incertezas, que viviam como pequeno grupo nascente estão alegres. 

A alegria é fruto da presença do Ressuscitado no meio deles, que os encoraja a não ficar parados, fechados no cenáculo, mas a comunicar essa alegria a todos/as como Jesus o fez.

Por isso a Igreja é, desde sua origem, missionária. A missionariedade é parte da natureza da Igreja, não uma atividade mais.

Segundo o teólogo francés Marie Dominque Chenu a Igreja precisa a anunciar com sua vida o anúncio do profeta Sofonias que coloca na boca de Javé estas palavras: "Me enamorei de vocês, e quero vir a viver com vocês: então, dançarei de alegria".  Se a instituição é necessária, também com a sua dimensão política, segundo a lógica própria da encarnação, então ela não será outra coisa que um serviço, um conjunto de "ministérios".

Compreender e realizar essa missão nos dias de hoje é o grande desafio de toda a Igreja.



Referências
BOFF, Leonardo. Hablemos de la outra vida. Barcelona: Sal Terae, 1978. 
DUFOUR, Xavier Leon. Ressurrección de Jesus y mensaje Pascual. Barcelona: Sigueme, 1972
KONINGS, Johan. Espírito e Mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia, 1981.

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