sábado, 24 de setembro de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo a Vida Pastoral

VV.AA. Animação Bíblica da Pastoral: passo a passo a travessia se faz. Vida Pastoral, São Paulo, n. 280, setembro-outubro de 2011, 64 p.

Por Edson Carlos Braz

A revista Vida Pastoral de setembro-outubro de 2011 - ano 52 - n. 280, traz 4 textos sobre Ex 15,22-18,27. Pelo menos durante os meses de setembro/outubro, pode-se fazer o download deste número da Vida Pastoral, que está disponível na Internet, no site da Paulus/Paulinos, em formato pdf.

Os textos foram escritos pela Equipe do Centro Bíblico Verbo, destacando-se os nomes de Maria Antônia Marques e Shigeyki Nakanose.

Observo aqui que os artigos são versões um pouco mais resumidas de 4 dos 6 textos que foram publicados pelo mesmo Centro Bíblico Verbo no livro A caminhada no deserto: entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27. São Paulo: Paulus, 2011, 112 p., aqui apresentado pelo estudante do Primeiro Ano de Teologia do CEARP, Wesley Gonçalves de Oliveira.

Os quatro artigos são:
  • A caminhada no deserto: Introdução à leitura de Êxodo 15,22-18,27 - Equipe do Centro Bíblico Verbo
  • Não acumular... memória que deve permanecer viva! Uma leitura de Êxodo 16,1-3.12-21 [os episódios do maná e das codornizes] - Maria Antônia Marques
  • Deus está em guerras? Uma leitura de Êxodo 17,8-16 [combate contra Amalec] - Shigeyuki Nakanose
  • Mulher, homem e família. Uma leitura de Êxodo 18,1-12 [chegada do sogro Jetro, da mulher Séfora e dos filhos de Moisés] - Maria Antônia Marques e Shigeyuki Nakanose

O estudo começa fazendo uma introdução de como foi a caminhada do povo, que acabara de ser liberto do Egito e estava procurando a terra prometida. Também trata do significado do nome do livro e do período em que foi escrito, especificando o seu contexto econômico, político e religioso, enfatizando a maneira em que o mesmo fora escrito, tendo havido muito tempo de transmissão oral até a época bem mais recente da escrita. O artigo está dividido em três etapas: 1. o contexto das narrativas da travessia no deserto; 2. como entender o livro do êxodo e 3. chaves de leitura para os textos de Ex 15-18.

Como parte do Pentateuco ou Torá (Lei), o Livro do Êxodo conta o começo da história de Israel, falando sobre o povo escolhido que anseia em chegar à terra prometida. Os acontecimentos do Êxodo são fundamentais para a reflexão teológica de Israel, pois fala de um povo que está a caminho e essa caminhada deve ser sempre recordada.

Entretanto, essa história da saída do Egito foi transmitida de forma oral e só muitos séculos depois veio a ser escrita. Por isso, as narrativas expressam, muitas vezes, conflitos posteriores do povo israelita. Se as narrativas remontam a uma memória do século XIII a.C., a forma final, escrita, como a temos hoje, pode ser situada no pós-exílio, no final do século V a.C., por volta do ano 400, em pleno regime teocrático sob o controle dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, que, por sua vez, obedeciam aos interesses geopolíticos do Império Persa. Marcas deste período nos textos são, por exemplo, as instituições oficiais e a teologia monoteísta do Deus único.

Maria Antônia Marques faz, no segundo artigo, uma leitura de Êxodo 16,1-3.12-21, onde está o relato do maná, que em hebraico é “man hû”, que, é, afinal, uma pergunta: "O que é isso?" Trata-se da secreção produzida por insetos que se alimentam de tamargueiras e é composta de uma substância açucarada que se solidificada no ar seco e frio da noite, mas que derrete sob o calor do sol. É possível encontrá-la na região central do Sinai, nos meses de maio e junho.

No mês de setembro as codornizes retornam de sua migração na Europa, impelidas pelo vento oeste, e são facilmente abatidas, e em grande quantidade, na costa do deserto. A autora nos alerta que "é possível que esse capítulo reúna memórias de diferentes grupos que deixaram o Egito separadamente (cf. Ex 7,8;11,1), seguindo por diferentes caminhos(Ex 13,17). Em sua fuga, o povo foi se ajeitando como era possível, alimentando-se com o que encontrava no deserto. Depois de muitos anos, o povo revê a sua trajetória e relê esses fatos como providência especial de Deus" (p. 26).

Na última parte deste artigo, Maria Antônia Marques explica o significado do milagre na Bíblia, que não é visto como algo que viola as leis da natureza (desconhecidas na época), mas como um prodígio, uma maravilha, fato extraordinário que revela a ação de Deus.

Há ainda dois outros artigos. Mas, para terminar, quero lembrar que quando fazemos um estudo de textos bíblicos é preciso nos situarmos no tempo, na história e saber entender o ambiente em que foi escrito e a maneira pela qual foi transmitida a mensagem antes da mesma ser escrita.

O Êxodo, livro da saída, quer mostrar a busca do povo por uma terra justa onde as pessoas não fossem oprimidas e vivessem dignamente, na solidariedade e respeito mútuo. E essa busca também está presente na sociedade hodierna, onde há pessoas exploradas e vítimas de preconceito, mas vivendo em busca de um norte para sua realização. Ao fazer memória é sempre preciso ter em mente as perdas e conquistas, para prosseguir continuamente.
 
Fonte: http://blog.airtonjo.com/2011/08/mes-da-biblia-2011-exodo-segundo-vida.html

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo a CNBB

CNBB Travessia: passo a passo, o caminho se faz - Ex 15,22-18,27. Brasília: CNBB, 2011, 88 p. - ISBN 9788579720864
Por Ferdinando Henrique Pavan Rubio

Este livro apresenta, de maneira introdutória, subsídios para estudo, reflexão, oração e prática para o mês da Bíblia de 2011. A “Travessia”, como sugere o tema, segue o roteiro apresentado em Ex 15,22-18,27 e a escolha se justifica, pois o êxodo e a caminhada são realidades vividas no dia a dia do povo de Deus.
O objetivo da reflexão sobre a caminhada do povo de Deus no deserto é animar as comunidades cristãs de hoje. Tratando disso, dedicaremos mais atenção às etapas da marcha no deserto depois da libertação do Egito, fato que antecede a experiência de Deus e a revelação do Sinai.
O lema escolhido “Aproximai-vos do Senhor” (Ex 16,9) é um convite a renunciar aos ídolos mudos e retomar a caminhada, fiéis ao Senhor.
Finalmente, este livro foi escrito a três mãos. A primeira parte, “Êxodo e caminhada”, que contextualiza a travessia no êxodo, foi elaborada por Frei Vicente Artuso. A segunda parte, “As etapas da caminhada”, com os roteiros para estudo e reflexão, foi desenvolvida por Frei Ildo Perondi (Ex 15,22-17,16) e por Valmor da Silva (Ex 18).
A primeira parte do livro logo nos apresenta que êxodo significa saída, é caminhada em marcha, enfrentando dificuldades, vencendo etapas e também celebrando conquistas passo a passo; a esperança final da caminhada é a entrada na terra prometida.

O tema do êxodo possui profundo sentido teológico, pois revela que o Senhor é o personagem central da história. Ele está presente nos acontecimentos como libertador que supera o poderoso concorrente, o faraó do Egito.
É provável que a época histórica do êxodo do Egito ocorreu por volta de 1250 a.C., durante o domínio do poderoso faraó Ramsés II que reinou por 67 anos e que grande parte dos livros de Êxodo e Números foi formada a partir do cativeiro de Babilônia (587-538 a.C.). O Pentateuco, por sua vez, só ficou pronto por volta de 400-350 a.C.
Aliás, partida (êxodo), caminhada (deserto), parada (sinais), chegada (Moab) são etapas na realização do projeto do Êxodo bem costuradas nos cinco livros do Pentateuco.

Na segunda parte dessa obra, seguem-se os passos da travessia pelo deserto, a caminhada após a passagem do mar, até a chegada ao monte Sinai.

Vejamo-los:
Primeiro roteiro, Ex 15,22-27: O povo de Deus no deserto – Neste trecho o povo já saiu do Egito e a caminhada em busca da Terra Prometida agora começa a entrar pelo deserto. Mas após três dias de viagem o estoque de água acabou. Veio a sede e a primeira fonte encontrada em Mara, era de água amarga. Por isso o povo começou a murmurar, mas Moisés agirá em nome do povo para resolver o problema da sede. Esta passagem bíblica termina indicando que, quando partiu de Mara, o povo caminhou mais um longo trecho e chegou até Elim. Desta vez não houve mais murmurações e então o povo encontrou a abundância: doze fontes de água, setenta palmeiras e o lugar para o descanso! (cf. Ex 15,27).
Segundo roteiro, Ex 16,1-36: O povo de Deus diante da fome – Depois da sede em Mara, surgiu outro problema na caminhada do povo: a fome. Então o povo voltou a murmurar! Deus, porém, escutou o clamor de seu povo e, usando o maná e as codornizes, solucionou o flagelo da fome.
Terceiro roteiro, Ex 17,1-7: A sede leva seu povo a tentar seu Deus – Faltou água e o povo “murmurou” contra Moisés outra vez. Ele já não sabia mais o que fazer, pois até corria o risco de ser apedrejado. A solução para o problema veio, outra vez, do meio do povo, quando Deus mandou que Moisés escolhesse os “anciãos” para ajudá-lo e que levasse consigo a vara. Assim, Moisés golpeou a rocha e dela saiu água! Novamente o problema foi resolvido.
Quarto roteiro, Ex 17,8-16: A oração e a luta vencem o inimigo – O novo conflito surgiu com os amalecitas, que atacaram o povo de Deus que rumava à Terra Prometida. Josué foi o responsável pela organização do povo para a defesa e realização do combate com os inimigos. Enquanto isso, Moisés, junto com seus dois ajudantes, subiu à montanha para interceder e pedir ajuda. Aqui, a intervenção divina foi o que desequilibrou o combate, trazendo a vitória ao povo de Deus.
Quinto roteiro, Ex 18,1-12: Famílias se encontram para um projeto comum – Antes de acampar ao pé do monte Sinai, em pleno deserto, um novo episódio marca o fim dessa caminhada. Chega Jetro, com a filha e os netos, para encontrar o genro. O assunto entre Moisés e o sogro girou em torno dos feitos do Senhor em favor de Israel, algo que causou grande alegria a Jetro, a ponto de louvar e professar a fé no Deus Javé.
Sexto roteiro, Ex 18,13-27: O caminho da participação passa pela descentralização – A palavra de Jetro impulsiona nova organização com maior descentralização do poder, ao sugerir escolher do meio do povo homens capazes, tementes a Deus, seguros, incorruptíveis, e organizá-los como chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez. juntamente com Moisés, eles serão juízes permanentes e dividirão a carga, de maneira proporcional.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo Pixley

PIXLEY, G. V., Êxodo. São Paulo: Paulus, 1987, 252 p. - ISBN 8505006224 - Original disponível online: Éxodo, una lectura evangélica y popular. México, 1983
 
Por Mateus Morais e Silva
 
O presente texto tem como objetivo apresentar interpretações relevantes a partir da proposta da CNBB para o Mês da Bíblia de 2011. A obra Éxodo, una lectura evangélica y popular, de George V. Pixley, traduzida do espanhol para o português por J. Rezende Costa é o embasamento deste trabalho.

É necessário salientar que não se trata de esgotar as interpretações ou comentários exegéticos sobre os textos bíblicos abordados. Mas de auxiliar na compreensão de tais textos, que no decorrer da história contribuíram de alguma forma para o reconhecimento e/ou descobrimento de um Deus que não oprime, mas que liberta das mãos dos opressores.

De acordo com Pixley, a exegese liberal – predominante nos séculos XIX e metade do XX – muito cooperou para valorizar o Antigo Testamento. Tal contribuição foi sendo aprimorada nos grandes centros de estudos, sobretudo dos países desenvolvidos, vindo ao encontro de uma maneira já “popularizada” de ler a Bíblia nos países menos desenvolvidos. Alguns avanços foram possíveis graças à aproximação dos trabalhadores e camponeses com a Sagrada Escritura.

É indispensável para o povo cristão saber como se lê o livro do Êxodo, pois ele apresenta a libertação do povo do Deus, sendo este o ponto de partida para a compreensão do que mais tarde será um evento determinante e salvífico, o anuncio do Reino, a Boa Nova.

São de suma importância algumas informações sobre o Livro do Êxodo: é o segundo dos cinco livros atribuídos a Moisés e possui quarenta capítulos. A palavra Êxodo significa "saída" e vem da Septuaginta (LXX), a mais antiga tradução grega do Antigo Testamento hebraico.

Êxodo conta a história da saída de toda uma nação - Israel - do Egito para começar uma vida nova. Não há em toda a história humana uma coisa mais espetacular do que a saída de Israel do Egito, uma revelação de Deus mais solene do que a do Monte de Sinai, uma construção (estrutura) mais significante do que o Tabernáculo e nem uma figura humana maior do que Moisés no Antigo Testamento.

O personagem principal deste livro é Moisés. Ele foi chamado para a importante missão de libertar o povo do Egito e conduzi-lo para a Terra Prometida. Mas também Deus é personagem principal, pois é Ele mesmo quem caminha com o povo e com ele faz história. Em Ex 3,13-14 Deus revela seu verdadeiro Nome, e diz que é o mesmo Deus da Promessa feita aos Patriarcas.

Pixley procura explicar os textos do Êxodo como um todo literário. Assim sendo, vale ressaltar que é fundamental o reconhecimento de que o Pentateuco não é obra de apenas um autor. Três grandes tradições, em três épocas diferentes, estão misturadas nos livros do Pentateuco. Em primeiro lugar a Javista (J), aquela que sempre chamava Deus de Javé, em seguida a Eloísta (E), que se refere a Deus usando o termo Elohim, e, por fim, a tradição Sacerdotal (P, do alemão "Priester" = Sacerdote).

A tradição Sacerdotal (P) é muito particular e por isso se distingue das outras. Quando se fala do Sinai, por exemplo, existe uma complexidade literária tão grande que é difícil perceber onde estão as tradições Javista ou Eloísta, enquanto que a tradição Sacerdotal pode ser facilmente reconhecida. Tomadas em conjunto, porém, estas três dimensões ajudam a esclarecer o texto.

No decorrer da história os relatos foram sendo modificados para responder aos interesses do povo em seus diferentes momentos. Nos textos sobre o Êxodo, quatro momentos podem ser vistos, cada um em seu próprio contexto. Vamos falar, assim, de quatro níveis do relato.

O primeiro nível corresponde ao grupo que viveu a experiência da libertação do Egito. Explica Pixley: "Este nível do texto está tão encoberto por níveis posteriores, que já não se pode identificá-lo no texto atual, mas é de certa importância não perdê-lo totalmente de vista, justamente por ser o primeiro relato do êxodo. Neste comentário proponho a hipótese de que o grupo que experimentou o êxodo foi um grupo heterogêneo de camponeses no Egito, acompanhado por um grupo de imigrantes das regiões orientais" (p. 10).

o segundo nível possui marcas de reprodução das tribos de Israel na terra de Canaã. Havia nas cidades os senhores, os quais cobravam pesados impostos, assim sendo, os camponeses contrários a estes senhores provocaram uma série de levantes contra a exorbitante cobrança dos tributos. As tribos que diretamente viviam sob esta condição se refugiavam pelas montanhas e começavam, então, a formar alianças para garantir a própria segurança. Uma aliança dessas tribos rebeldes ficou conhecida como Israel.

Mas quando chegamos ao terceiro nível, o êxodo é apresentado como uma luta entre dois povos, Israel, liderado por Moisés, e o Egito, liderado pelo Faraó. Isto é resultado da instituição da monarquia israelita, que necessita de uma produção ideológica que sustente o novo consenso nacional e que não deve ser nem revolucionária e nem antimonárquica. "Como parte deste esforço se reproduziu o relato indispensável do êxodo, para fazer dele uma luta de libertação nacional e não mais mera luta de classes" (p. 11). Neste nível, Pixley situa as tradição Javista (J), mas também situa a tradição mais crítica e de linha profética conhecida como Eloísta (E).

O quarto nível, enfim, exibe com destaque a libertação como um ato de Iahweh, "para demonstrar sua indiscutível divindade, e do Sinai o momento em que Iahweh revela a seu povo o culto que lhe devia prestar. Este é o período da vida judaica sob o império persa no século V a.C." (p. 12). Podemos identificar este nível com o relato Sacerdotal (P), quando a história do êxodo torna-se a história da fundação da comunidade religiosa daqueles que obedecem, com exclusividade, a Iahweh e seus preceitos.

Ora, fazendo uma inversão e olhados na ordem em que aparecem no texto atual, de cima para baixo, os quatro níveis da reprodução do relato do Êxodo são:
4) Iahweh x ídolos: história da fundação da comunidade religiosa (P)
3) Israel x Egito : libertação nacional - luta pela identidade nacional (J e E)
2) Israel x Canaã: luta contra a monarquia que sustenta as cidades cananeias - fase oral dos relatos
1) Moisés x Faraó: camponeses e imigrantes se levantam contra o Faraó - o nível da experiência do êxodo encoberto pelos textos atuais

Apresento, enfim, algumas características que permeiam o itinerário de todo o texto do Livro do Êxodo.

A falta de água (Ex 15, 22-27), era o grande desafio e perigo maior enfrentado no deserto. O povo, frente a tal dificuldade, murmura contra Moisés. Iahweh indica a Moisés como tornar a água de Mara (amarga) em água potável.

Também a falta de alimentos era uma forma de ameaça para o povo (Ex 16, 1-36). No Egito o alimento estava garantido, mas no deserto Israel se encontrava em situação difícil e daqui resulta o perigo da fome. Moisés apresentava Iahweh àquele povo como o libertador, porém não o viam assim, devido ao modo de vida que tinham no deserto. Iahweh vem ao encontro do povo para resolver a sua grande aflição.

Ao faltar água novamente, parece haver um confronto com Moisés, mas, na verdade, o povo duvida que a ação de Iahweh aconteça na história. Contudo, quando o profeta se depara com a lamentação do povo, recorre a Iahweh e reconhece a intervenção divina que o fizera sair de uma situação de morte para poder viver.

E as atribulações e provações se multiplicam, como, por exemplo, um ataque dos amalecitas, inimigos que atacavam Israel vindos de fora do país...
 
Fonte: http://blog.airtonjo.com/2011/08/mes-da-biblia-2011-exodo-segundo-pixley.html

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo Estudos Bíblicos

SCHWANTES, M. et al. A memória popular do êxodo. 2. ed. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 16, 1996, 84 p.
Por Victor Mariano Rodrigues
Os biblistas Milton Schwantes, Hans Alfred Trein, Ana Flora Anderson, Gilberto Gorgulho, Carlos Arthur Dreher, Sandro Gallazzi e José Comblin, em um conjunto de sete artigos, apresentam o êxodo a partir de sua origem e desenvolvimento na memória popular. Este número da revista Estudos Bíblicos traz também duas recensões escritas por Ludovico Garmus sobre os livros de J. Severino Croatto, Êxodo: uma hermenêutica da liberdade e George V. Pixley, Êxodo. Apesar da "idade" deste número, que teve sua primeira edição publicada em 1988, os artigos trabalham muito bem temas que permanecem atuais. Estes estudos podem ser úteis para a compreensão global do êxodo e, portanto, para o Mês da Bíblia deste ano.

Antes do desenvolvimento e aprofundamento da memória popular no decorrer da história do povo de Israel, o êxodo é apresentado como revelação de Deus para a libertação de todos. O êxodo, memorial da libertação, apresenta Javé, o Deus que liberta o seu povo da escravidão e assegura um novo modelo igualitário. O êxodo é o centro da interpretação da lei e dos profetas e nos ajuda a compreender o êxodo de Jesus em sua missão e em sua prática libertadora.

No primeiro artigo, Milton Schwantes aborda o êxodo como evento exemplar que ilumina toda a história da Bíblia, pois apresenta o Deus libertador. Neste sentido a Bíblia é testemunha de Deus que escuta o clamor do seu povo. O êxodo é um verdadeiro memorial que perdura por toda a Bíblia. Mesmo em o Novo Testamento não se pode esquecer que a crucificação e ressurreição de Jesus ocorrem no contexto da Páscoa. A Páscoa era a festa de ação de graças a Deus daquele povo libertado. Da mesma forma toda a humanidade celebra a nova Páscoa em memória de Jesus libertador. Nas palavras do autor: "O êxodo é um paradigma. Faz as vezes de; é um exemplo. Assemelha-se a uma lâmpada. Ilumina toda a história bíblica. Aparece como sua vela principal" (p. 9).

Importante ressaltar que o êxodo, em nossos dias, acontece constantemente, principalmente para os povos latino-americanos. O êxodo rural, onde acontece uma violenta expulsão de pequenos proprietários, lavradores e sem-terra, o operário que é jogado de um emprego para o outro, migrantes oprimidos, famílias são empurradas de uma periferia à outra. E o autor coloca a questão: Ir para onde? Onde está a terra que mana leite e mel?

No segundo artigo Hans Alfred Trein trata da situação histórica dos hebreus no Egito e no Antigo Testamento. Hebreus: a que está se referindo este nome no Antigo Testamento? A palavra hebreus aparece pela primeira vez como qualificativo das parteiras que recebem ordem do faraó para que deixem viver somente as meninas (Ex 1,15ss). Hebreus podem ser denominados também como filhos de Israel, ou é uma designação para escravos por tempo limitado. Nos outros livros da Bíblia hebreus aparece com outra função, tanto para se referir ao povo escravo como para falar dos israelitas ou filhos de Israel. O que é nítido no Antigo Testamento é que os hebreus têm uma vida parecida com a do povo oprimido dos nossos dias.

No terceiro artigo, a origem social dos textos de Ex 1-15 é uma importante questão levantada por Milton Schwantes: "A pergunta pela origem é (...) a pergunta pelos setores sociais e as lutas populares que geraram e criaram os textos" (p. 31). A questão não é, entretanto, descobrir a intenção dos autores destes textos - em geral apelidados de javista, eloísta e sacerdotal na chamada 'teoria das fontes do Pentateuco', hoje em profunda crise -, mas localizar os portadores da memória do êxodo. O êxodo libertador foi preservado e transmitido pelos camponeses e lavradores no âmbito da chamada “guerra santa”, uma prática de luta contra os inimigos no meio clânico-tribal, na qual. todos unidos, viam a divindade como seu guia e protetor.

A origem destes textos está na memória face às experiências dos setores populares e dos camponeses na tentativa de se libertar de qualquer tipo de opressão. "As experiências da 'guerra santa' foram locais bastante privilegiados para a rememorização dos episódios ocorridos aos hebreus no Egito. A autodefesa contra invasores prepotentes trazia à memória a estupenda derrota do Faraó. Por ocasião da recepção na aldeia, as mulheres cantavam a memória do êxodo, quando Javé precipitara no mar 'o cavalo e o o seu cavaleiro'" (p. 36).

Ana Flora Anderson e Gilberto Gorgulho mostram, no quarto artigo, que, na luta pela libertação, como está narrado em Ex 1-15, as mulheres tiveram importante papel. Arqueólogos e antropólogos sugerem que foi na época da libertação dos escravos do Egito que as mulheres mudaram de posição social. Na transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro foi necessário uma mudança do papel da mulher que teve sua participação no cultivo da terra e sua participação nas lutas dos camponeses e dos pastores. "Este período foi decisivo para a condição das mulheres no novo modelo social procurado pelas tribos libertadas. A nova condição das mulheres relaciona-se com o cultivo da terra, assolada por pragas, doenças endêmicas, fome e violência (...) O papel das mulheres concentrou-se na defesa da casa, geração e criação de filhos, trabalho da terra e participação nas lutas de defesa" (p. 40-41).

Nas lutas camponesas destacam-se algumas mulheres que lutaram pela libertação do seu povo contra a opressão e as doenças que ameaçavam a sobrevivência. Como figuras inspiradoras desta luta aparecem, no relato do êxodo, Miriam, as parteiras, a mãe de Moisés, Séfora...

A revista traz ainda os artigos de Carlos Arthur Dreher, Sandro Gallazzi e José Comblin. Que tratam das tradições do êxodo e do Sinai (Dreher), de Ex 3 e o profetismo camponês (Gallazzi) e, finalmente, do êxodo na teologia paulina (Comblin).

Como diz Milton Schwantes no editorial, os artigos deste número de Estudos Bíblicos "são uma ajuda para descobrir a riqueza inesgotável do êxodo como o foco principal e inspirador de uma teologia que queira ser um discernimento de fé a partir da prática histórica da libertação dos pobres e dos oprimidos" (p. 7).
Fonte: http://blog.airtonjo.com/2011/08/mes-da-biblia-2011-exodo-segundo_29.html

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo Mercedes Lopes

LOPES, M. Deus liberta escravos e faz nascer um povo novo: Êxodo 15 a 18. São Leopoldo: CEBI/Paulus, 2011, 74 p. - ISBN 9788577331284

Por André Luís Rodrigues

Mercedes Lopes cursou Teologia e Bíblia na Universidad Bíblica Latinoamericana, em San José, Costa Rica (1995) e é Doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2007). Além de outros grupos, assessora o CEBI.

A autora começa a Introdução deste subsídio preparado para o Mês da Bíblia de 2011 fazendo uma reflexão sobre os vários êxodos ainda hoje existentes em toda a América Latina, como os do povo Guarani e dos afro-americanos. Mas também dos que são obrigados a sair de sua terra em busca de sobrevivência, ameaçados, cada vez mais, por desastres ecológicos ou pelo latifúndio. Nestes processos, para que o caminho seja em direção à liberdade e não a uma nova escravidão, é preciso deixar a cultura dominante da ganância e do individualismo e reaprender a solidariedade que celebra a vida, diz a autora.

Em seguida, Mercedes traça um panorama histórico do contexto do êxodo, no século XIII a.C., dos variados grupos étnicos que teriam dele participado, do enfoque teológico do relato que vê Deus como o libertador e explica, por fim, a lenta e complexa formação do Livro do Êxodo como um processo de séculos, com redação final só no pós-exílio. Bem, o que se lê aqui é o usual, aquilo que lemos em qualquer livro que trate deste tema.

Dividido em oito círculos bíblicos, o livro quer oferecer às comunidades uma ferramenta que as conduzam pelos meandros do êxodo e, ao mesmo tempo, as ajudem a pensá-lo como uma realidade sempre atual. Isto tudo em uma perspectiva celebrativa.

Acredito que a melhor maneira de abarcar com um só olhar a totalidade dos círculos bíblicos sejam os títulos que a autora lhes dá. Assim:
  • Primeiro Círculo: Ex 15,1-21 - Cantando e dançando se faz teologia (o cântico de Miriam)
  • Segundo Círculo: Ex 1,15-2,10 - Elas fizeram acontecer o Novo (o papel fundamental das mulheres para a sobrevivência do menino Moisés)
  • Terceiro Círculo: Ex 15,22-27 - Aprender a viver no deserto das grandes cidades (o episódio de Mara)
  • Quarto Círculo: Ex 16,2-3.9-17 - Desaprendendo a acumulação dos faraós (o maná e as codornizes)
  • Quinto Círculo: Ex 17,1-7 - Sem água não há caminhada (a água da rocha)
  • Sexto Círculo: Ex 17,8-15 - A presença de Deus sustenta o povo na luta pela vida (combate contra os amalecitas)
  • Sétimo Círculo: Ex 18,1-12 - O bom êxito da caminhada depende das relações interpessoais (a família de Moisés vem ao seu encontro)
  • Oitavo Círculo: Ex 18,13-27 - Urge fazer circular o poder para a defesa da vida (a instituição dos juízes)

Para terminar, lembro que Mercedes Lopes utiliza os círculos bíblicos como um mecanismo que estabelece um diálogo dinâmico e transformador. Ela diz: "Através da leitura e meditação da Palavra em círculo, ocorre uma experiência tão simples e vital que faz arder o coração e liga as pessoas entre si". E explica: "O verdadeiro segredo dos círculos bíblicos é que eles levam a descobrir a presença escondida de Deus no meio de nós, gerando relações novas de reciprocidade e compromisso" (p. 19).

Fonte: http://blog.airtonjo.com/2011/09/mes-da-biblia-2011-exodo-segundo_06.html

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo Mesters e Orofino

MESTERS, C.; OROFINO, F. A Caminhada do Povo de Deus. Os desafios da travessia: Ex 15-18. São Leopoldo: CEBI, 2011, 48 p. - ISBN 9788577331253

Por Luciano Giopato Roncoleta

Carlos Mesters nasceu na Holanda em 20 de outubro de 1931, mas veio para o Brasil em 1949. Cursou Teologia no Angelicum, em Roma, e Ciências Bíblicas no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na École Biblique de Jerusalém. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa do Instituto Teológico São Paulo (ITESP). Idealizador do CEBI, Mesters é um dos principais exegetas brasileiros.
Francisco Orofino é biblista e educador popular. É também assessor nacional do CEBI e do ISER. Fez doutorado em Teologia Bíblica na PUC-Rio (2000).

Ao apresentar este subsídio, os autores explicam o assunto, o tema, o lema e o objetivo a ser alcançado neste Mês da Bíblia de 2011. Explicam também que a palavra "caminhada", entendida como travessia de uma situação de opressão para a situação de vida plena, presente no título deste livro, era a mais usada pelos primeiros cristãos para designar o movimento de Jesus e que até hoje esta é a palavra mais usada para designar o movimento de renovação da Igreja através das CEBs. O livro, dizem, tem duas partes: uma curta e uma longa. A curta dá uma visão global da Caminhada do Povo de Deus descrita no Livro do Êxodo; a longa traz oito Círculos Bíblicos que fazem uma Leitura Orante de Ex 15-18 e Ex 20.

:: Na primeira parte do livro, a curta, se mostra como Ex 15-24, em dez capítulos e duas partes, descreve a caminhada o povo após a travessia do mar e, em seguida, a celebração da Aliança entre Deus e o povo no Sinai.

Ora, os casos contados em Ex 15-18 são muito simples, bem populares, às vezes exagerados - quem conta um conto, aumenta um ponto! -, mas não para enganar e sim para mostrar melhor a mensagem que os fatos tinham para a caminhada do povo. E em Ex 19-24 os seis capítulos trazem um roteiro litúrgico no qual o povo celebra tudo aquilo que tinha aprendido na caminhada pelo deserto. No Mês da Bíblia deste ano aprofundaremos a primeira parte - Ex 15-18 (e Ex 20) - desta que os autores chamam de Cartilha da Caminhada do Povo de Deus.

Cartilha que é, como dizem, uma parede nova feita com tijolos velhos. Os tijolos podem ser lá do começo de Israel - séculos XII e XI a.C. - mas a parede foi feita devagar, começando talvez na época do rei Ezequias, no século VIII a.C., continuando na época do rei Josias, século VII a.C., e só terminando lá pelo século V a.C., no pós-exílio, na época de Esdras. Esta Cartilha foi, em Israel, uma das ferramentas mais importantes para animar o povo nas dificuldades, para lembrá-lo de suas origens e da necessidade de manter o compromisso da Aliança. É uma Cartilha que traz o passado para o presente do povo, para mostrar que o êxodo continua acontecendo na sua vida, assim, como nós, ao retomarmos o tema, queremos lembrar que o êxodo acontece sempre, acontece aqui no Brasil hoje.

:: Na segunda parte do livro, a longa, estão os oito Círculos Bíblicos. Olhando para estes textos se vê que, durante a caminhada contada em Ex 15-18, o povo reclama, a toda hora, de Moisés e até de Deus. Quem escreveu o Livro do Êxodo chamou isso de murmuração, que é uma fala em voz baixa, um resmungo. Dizemos: "que sujeito mais resmungão"; ou: "pare de resmungar, menino"! Por isso, nos Círculos é bom a gente ver como eles conseguiram vencer as causas da murmuração, do resmungo, e continuar sua caminhada.

Assim, na lista dos oito Círculos Bíblicos a palavra "murmuração" sempre aparece:
  • Primeiro Círculo: Ex 15,1-21 - a força do canto da vitória vence a murmuração provocada pelo medo
  • Segundo Círculo: Ex 15,22-27 - a luz da Lei de Deus vence a murmuração provocada pela sede
  • Terceiro Círculo: Ex 16,1-36 - a segurança da partilha vence a murmuração provocada pela fome
  • Quarto Círculo: Ex 17,1-7 - a certeza do Deus conosco vence a murmuração causada pela descrença.
  • Quinto Círculo: Ex 17,8-16 - a esperança da oração vence a murmuração causada pelo desânimo
  • Sexto Círculo: Ex 18,1-12 - a união das famílias vence a murmuração causada pela divisão
  • Sétimo Círculo: Ex 18,13-27 - a participação nas decisões vence a murmuração causada pela dominação
  • Oitavo Círculo: Ex 20,1-21 - a liberdade dos mandamentos vence a murmuração causada pelo legalismo.

Para cada Círculo Bíblico os autores propõem a seguinte dinâmica:

Acolhida - preparando o ambiente

1. Vivências da caminhada do povo de hoje - pensar numa situação real e fazer perguntas para despertar a partilha

2. Vivências da caminhada do povo da Bíblia - chave de leitura; leitura lenta e atenta do texto; refletir para enxergar melhor; fazer perguntas que ajudam a descobrir a mensagem para nós hoje

3. Chegar a um compromisso diante de Deus - ligar o ontem com o hoje e orar

4. Uma reflexão para enxergar melhor - subsídio para ajudar a diminuir a distância que nos separa do êxodo no tempo e no espaço: do século XII a.C. para hoje são mais de 3 mil anos, do norte da África para o Brasil são cerca de 12 mil km...

Como todo mundo já sabe, os livros de Carlos Mesters - aqui com Francisco Orofino - são escritos em uma linguagem clara, fácil, prática, que cativa o leitor já no primeiro parágrafo. Não são invenções teológicas amargas enfiadas à força na goela do povo, pois a preocupação é sempre ler a vida com a ajuda da Bíblia e não a Bíblia com a ajuda da vida.

Ou, dizendo de outro modo: estimulado pelos problemas da realidade (pré-texto), o povo busca uma luz na Bíblia (texto), que é lida e aprofundada dentro da comunidade (con-texto). O pré-texto e o con-texto determinam o "lugar" de onde se lê e interpreta o texto.



sábado, 17 de setembro de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo o Centro Bíblico Verbo

CENTRO BÍBLICO VERBO A caminhada no deserto: entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27. São Paulo: Paulus, 2011, 112 p.

Por Wesley Gonçalves de Oliveira

A equipe do Centro Bíblico Verbo publicou recentemente, a cargo da Paulus editora, um riquíssimo livro que, servindo de reflexão em encontros ou cursos bíblicos, busca oferecer às pessoas e comunidades um roteiro simples com fundamentação bíblica para assuntos importantes na pastoral.

Organizado para ser um subsídio, A caminhada no deserto – Entendendo o livro do Êxodo 15,22-18,27 oferece elementos capazes de mostrar com clareza o contexto em que os textos desse livro foram escritos, incentivando o leitor a se aprofundar na mensagem e a viver os ensinamentos de Deus.

Este subsídio pertence à coleção “Do povo para o povo” e surgiu da necessidade de socializar numa linguagem simples e didática as descobertas da pesquisa bíblica. A leitura divide-se em cinco encontros. Cada um traz orientações sobre o tema proposto, situando, comentando e aprofundando o texto sugerido para os debates.

Os encontros salientam de modo geral a importância da partilha, reavivando a experiência da gratuidade de Deus nos milagres experimentados em nossa vida cotidiana. Além disso, os responsáveis pelo texto falam sobre as relações humanas, meditam acerca do compromisso com a justiça e a solidariedade e destacam vários temas presentes no livro do Êxodo que ainda são atuais em nossa sociedade.

Esclarecem os autores: “No cotidiano, aprendemos que os tropeços nos ajudam na caminhada. Ao longo da história, o povo de Israel sempre fez memória da experiência vivida no deserto. Essa lembrança o ajudou a enfrentar as dificuldades do momento presente. Travessia é o espaço de uma nova aprendizagem”.

Por fim, travessia indica experiência e acontecimento. É por isso que “diversos grupos em diferentes épocas relembraram a saída do Egito e a caminhada no deserto. É uma fonte antiga e sempre nova. Mais uma vez, vamos entrar nessa caminhada e refazer esse percurso procurando novas luzes para a nossa caminhada hoje”, afirmam os autores.

O Centro Bíblico Verbo é um centro de estudos que há mais de vinte anos está a serviço do povo de Deus, desenvolvendo uma leitura exegética, comunitária, ecumênica e popular da Bíblia. O Centro Bíblico Verbo oferece cursos regulares de formação bíblica, em diferentes modalidades.


domingo, 11 de setembro de 2011

A G E N D A: S E T E M B R O


Andrés Torres Queiruga: Repensar a Cristologia e a Criação -

19, 20 e 21 de setembro -
das 8 às 11:30h e das 14 às 17:30h - 
Eventos Comemorativos aos 25 anos da ESTEF -
Local: ESTEF (Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana) -
Conferências sobre Cristologia e Criação.
O teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, um dos mais produtivos e instigantes teólogos da atualidade, é professor no Instituto Teológico Compostelano da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha).

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Estudo de Êxodo 15,22-18,27 -
26 a 30 de setembro -
das 19:30h às 21:45h -
Mês da Bíblia 2011 -
Local: Salão da Paróquia São Luís Gonzaga, no centro de Canoas -
Tema: Travessia: passo a passo, o caminho se faz. - 
Lema: Aproximai-vos do Senhor.

Perdoar sempre! (Mt 18,21-35)

Sônia Mota e Nelson Kilpp

O CONTEXTO

Com o texto de Mt 18,21-35, chegamos ao fim do sermão das comunidades ou sermão eclesiástico. O perdão de dívidas e ofensas não era uma prática desconhecida do povo de Israel nos tempos de Jesus. Mas parece que essa prática era bem difícil. De um lado, havia as minuciosas leis judaicas que exigiam uma série de procedimentos. De outro lado, estava a sociedade romana implacável e cruel especialmente para com os mais pobres. Nesse contexto, estão se formando novas comunidades cristãs. Algumas dessas comunidades querem seguir as exigentes leis da sinagoga, outras, pelo contrário, as práticas romanas. É para dentro deste contexto comunitário que Mateus está escrevendo.

A PERGUNTA
O texto começa com uma pergunta de Pedro:

- Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?

A legislação judaica exigia que se perdoasse até três vezes o irmão. Com sua pergunta, Pedro revela uma disponibilidade maior de perdoar do que a costumeira. Afinal, o número sete significa completude, perfeição. Mas a pergunta de Pedro ainda pressupõe que as possibilidades humanas para perdoar são limitadas.

Jesus responde:

- Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete.

Jesus surpreende com a resposta, pois setenta vezes sete simboliza aquilo que não mais é possível mensurar ou calcular. O perdão não pode ser calculado ou mensurado. Importante é a constante disposição de perdoar; esta não pode ter limites.

A PARÁBOLA

Através da parábola que segue, Jesus desafia os discípulos e as discípulas a sempre terem essa disposição de abertura para o perdão. Podemos dividir a parábola em três cenas.

CENA 1: A dívida e o perdão são imensos (Mt 18,23-27)

Porque o Reino dos Céus é semelhante a um rei que resolveu acertar contas com os seus servos. Ao começar o acerto, trouxeram-lhe um que devia dez mil talentos. Não tendo este com que pagar, o senhor ordenou que o vendessem, juntamente com a mulher e com os filhos e todos os seus bens, para o pagamento da dívida.

O servo porém, caiu aos seus pés e, prostrado, suplicava-lhe: "Dá-me um prazo e eu te pagarei tudo."

-Diante disso, o senhor, compadecendo-se do servo, soltou-o e perdoou-lhe a dívida.

A parábola não revela o motivo da dívida do servo, mas a quantia de dez mil talentos é impagável. Ela equivale a aproximadamente 350.000 quilos. Os tributos anuais pagos a Herodes, por exemplo, eram de 900 talentos. Seriam, portanto, necessários mais de dez anos de receita de uma província romana. O rei age conforme o costume da época: manda vender todos os bens e toda a família do servo devedor. Essa venda, no entanto, saldaria apenas uma parte mínima da dívida. Mesmo que a família toda trabalhasse a vida inteira, a dívida não conseguiria ser paga. Diante do pedido do servo, o rei se compadece e perdoa-lhe toda a dívida.

Chama a atenção o exagero da dívida e da atitude do rei. Este não prorrogou simplesmente o prazo solicitado pelo servo; perdoou-lhe a dívida.

Assim é a nossa dívida perante Deus: impagável. Assim também é o perdão de Deus: incomensuravelmente pródigo. Alguém uma vez afirmou que a pessoa cristã é alguém que foi condenado à pena de morte e depois anistiado.

CENA 2: A atitude mesquinha do empregado (Mt 18,28-31)

Mas quando saiu dali, esse servo encontrou um dos seus companheiros de servidão que lhe devia cem denários e, agarrando-o pelo pescoço, pôs-se a sufocá-lo e a insistir: "Paga-me o que me deves!"

O companheiro caindo a seus pés, rogava-lhe: "Dá-me um prazo e eu te pagarei."

Mas ele não quis ouvi-lo; antes, retirou-se e mandou lançá-lo na prisão até que pagasse o que devia.

Um denário era o equivalente ao salário de um dia. Com cem denários, um assalariado poderia viver parcamente durante quase 6 meses. A segunda cena repete a primeira: alguém cobra uma dívida, o devedor implora por um prazo. A diferença reside na atitude do credor. Nessa segunda cena, o credor não tem misericórdia e, por isso, não perdoa. O imenso perdão de Deus näo mudou a vida do empregado perdoado. A mão aberta para receber permaneceu fechada para dar. Viver do perdão implica deixar-se levar pela gratuidade e estender a mesma aos irmãos e às irmãs na prática cotidiana. As duas metades da quinta prece do Pai Nosso não devem ser separadas: "perdoa-nos ... como nós também perdoamos".

CENA 3: A esperança dos sem esperança (Mt 18,32-35)

Vendo os companheiros de serviço o que acontecera, ficaram muito penalizados e, procurando o senhor, contaram-lhe todo o acontecido. Então o senhor mandou chamar aquele servo e lhe disse: "Servo mau, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me rogaste. Não devias também tu, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti? Assim, encolerizado, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que pagasse toda a sua dívida. Eis como meu Pai celeste agirá convosco, se cada um de vós não perdoar, de coração, ao seu irmão.

Os companheiros do credor incompassivo poderiam ter ficado calados ou omissos diante de sua atitude para com o seu companheiro menos afortunado, numa atitude de "não querer comprometer-se", mas eles denunciaram aquilo que consideraram um comportamento inadequado.

Quem não vive o perdäo recebido de forma consequente menospreza o amor de Deus. O perdão compromente, a graça constrange. Ao estendermos o perdão recebido, o fazemos considerando a pessoa que nos ofendeu e em obediência ao mandamento de Deus. A prática do perdão rompe a relação de desigualdade, de exploração e de exercício desumano de poder e coloca a base de uma sociedade alternativa: as novas comunidades cristãs.

FECHANDO AS CORTINAS

Na oração do Pai Nosso pedimos: "perdoa as nossas ofensas assim como também perdoamos a quem nos tem ofendido". A misericórdia de Deus para conosco não tem limites nem se esgota. Só que ela nos constrange a orientar toda a nossa vida por ela. Caso contrário, desprezamos o perdão de Deus, deitamos a perdê-lo. A graça de Deus não é uma graça barata, mas uma graça que exige de nós o compromisso de sermos agentes de perdão e reconciliação. O sermão eclesiástico de Mateus pretende dar diretrizes de como as primeiras comunidades cristãs - e também nós hoje - podemos ajudar a construir uma sociedade alternativa em que o perdão prevaleça sobre a estrutura de dominação e a pirâmide do poder opressor.


Sônia Mota é pastora da Igreja Presbiteriana Unida - IPU; pelo CEBI ajudou a organizar o livro Travessias e Horizontes do Ecumenismo.

Nelson Kilpp é pastor da Igreja Luterana - IECLB. é biblista e autor de vários livros, entre os quais Espiritualidade e compromisso.